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Rua das Camélias, 1200.

30/03/2013

Lembro-me de quando me mudei pra cá, na Rua das Camélias, 1200, apartamento dois. Eu não tinha mais nada. Vendi meu apartamento em um bairro nobre da cidade e comprei esse em cima de um bar, na rua dos prostíbulos mais vagabundos da cidade. Sustentava-me com o dinheiro que sobrou da venda e com uma merreca que eu recebia semanalmente por escrever para um jornal local. Eu não precisava de muito, minha dieta restringia-se a cafés, cigarros e garrafas de Whisky. Vez ou outra eu adicionava a isso uma ou duas refeições diárias.

Conheci Maria nessa época. Era uma mulher linda, fumava com a perícia das atrizes hollywoodianas, tinha um corpo belíssimo, seios proporcionalmente perfeitos e pernas muito bem torneadas. Ah, Maria! Tinha o nome da virgem. Era puta.

Falei com Maria pela primeira vez no bar embaixo de minha casa, logo que me mudei. Eu estava bebendo quando ela se sentou ao meu lado. Conversamos pouco essa noite. Não porque eu estivesse bêbado, na verdade ela tinha uma noite cheia, precisava ganhar a vida. Nessa noite eu sonhei com ela, acordei quando meu corpo se chocou contra a sarjeta. Depois de três noites seguidas, o dono do bar não fazia mais questão de me arrastar escada acima.

Maria e eu, a partir de então, passamos a nos encontrar sempre. Acontecia todos os dias após termos nos conhecido. Ela chegava mais cedo, para conversarmos e eu bebia menos, para nos entendermos melhor. Assim que ela saia para trabalhar eu voltava a me embebedar, como sempre fazia. Conversávamos sobre tudo, o tempo, as manchetes, músicas, mas sempre acabávamos falando da vida. Principalmente da vida dela, já que da minha eu havia me esquecido de propósito, sempre muito bem acompanhado por uma dose ou outra de um Scotch de quinta. Ela me contou que sempre gostou de sexo, que desde sua primeira vez ela sabia que não encontraria prazer maior. Contou-me que foi expulsa de casa quando sua mãe descobriu o que ela fazia com os garotos do bairro, no lote vago da rua de trás. Me falou ainda de seu pai, do que ela sentiu quando viu o olhar de decepção no rosto dele, enquanto sua mãe a chamava de puta, vadia, meretriz. Maria contou-me sobre seu marido, um ser repugnante, um misógino de primeira categoria, que a espancava toda vez que ele não aguentava mais uma trepada. Ela listava as vantagens de ser puta, as desvantagens, também.  Dessa maneira, a cada dia nos aproximávamos mais, Maria e eu.

Durante certo tempo vivemos assim. Nos encontrávamos no bar para conversarmos, após uma ou duas horas ela ia trabalhar e, depois de algum tempo que nos tornamos amigos, ela voltava antes do bar fechar e gentilmente me ajudava a voltar pra casa. Os dias se passavam e cada vez mais meu desejo de ver Maria aumentava. Confesso que, em certos momentos, nossas conversas eram mais eficazes do que as doses diárias de álcool. Eu passei a beber menos e, ao fim da noite, quando ela voltava para me buscar, eu era capaz de subir as escadas, preparar um café e aproveitar mais algumas horas com Maria. Foi assim que certo dia nós nos beijamos e transamos durante todo o resto da madrugada, adentrando juntos os três; eu nela, a manhã em nós. Após esse encontro, não demorou muito para nos amigarmos. Maria juntou as poucas coisas que possuía e tratou de mudar-se pouco tempo depois, para viver junto a mim. Vivemos juntos pelo resto de minha vida.

Por anos nosso ritual permaneceu este, o mesmo bar, a boa conversa de sempre, uma ou duas xícaras de café acompanhadas de alguns cigarros e, para fechar a noite, quando ainda tínhamos energia para isso, transávamos até a exaustão. A vida era boa apesar de nosso dinheiro não ser muito. Quando o dinheiro da venda do meu antigo apartamento acabou, passei a escrever diariamente para o jornal e Maria continuava como puta. O trabalho dela nunca foi um problema para mim. Sempre achei que o que uma pessoa faz com o corpo dela não é da conta dos outros. Se Maria era feliz sendo puta, era isso que ela deveria ser. Ah! Como a vida era boa nessa época. Pena que a felicidade é uma verdade efêmera e, pouco tempo depois, meus fantasmas passados acabaram por levá-la de mim.

Acho que durante esse tempo em que Maria e eu fomos felizes, eu estive entorpecido por alguma coisa diferente do meu velho conhecido álcool. Nossas conversas, meu alcoolismo, meu trabalho, tudo era como morfina. Toda uma série de coisas contribuíra para manter minha mente afastada de meus demônios de outra vida, mas uma coisa que aprendi sobre esses nossos demônios é que eles sempre retornam.

Certa noite, Maria não foi ao bar antes do trabalho, desci e comecei a beber sozinho. Então, o dono do bar tomou a liberdade de ir conversar comigo. Ele perguntou por Maria, falou de sua esposa, de sua televisão estragada, de alguns clientes, até que começou a perguntar sobre mim. Eu lhe disse que se calasse e     que minha vida não lhe dizia respeito, mas apenas a menção ao tempo anterior à Rua das Camélias, foi suficiente para me trazer à memória o rosto que falhei miseravelmente em esconder. A partir de então, Eucádia aparecia constantemente em meus sonhos, lembrando-me da mulher que mais amei na vida, a mesma mulher que me fez querer esquecer essa antiga vida.

Daí em diante, bebia compulsivamente. O álcool não me fazia esquecer, mas evitava que eu sonhasse com ela. A verdade é que quando desmaiamos por causa da bebida, não sonhamos. Maria nunca se queixou, nosso ritual antes de seu trabalho permanecia o mesmo, só que com uma conversa mais rasa. Ao invés de subirmos juntos, ao final da noite, ela tornou a me levar pra casa. Quando me encontrava coberto de vômito, desmaiado na calçada, Maria acordava-me, me ajudava a subir as escadas, me limpava e me colocava na cama. Ela nunca me perguntou o porquê de tudo isso, só estava lá, sempre que podia.

Certo dia, após ter arrumado uma briga com um sujeito no bar, acordei completamente bêbado, jogado na sarjeta em frente à porta do mesmo, com o nariz quebrado. Não me recordo o motivo da briga, mas tenho certeza de que meu adversário não estava pior que eu. Subi as escadas para casa, cambaleando, fazendo as vezes de um péssimo equilibrista. Abri a porta de casa procurando por Maria. Ela não havia chegado. No momento em que não a encontrei em casa, memórias de Eucádia vieram a minha mente. Então as duas mulheres de minha vida se confundiram em minha mente e acometido por uma insanidade aguda, saí à procura de Maria. Enquanto a procurava, as memórias da vida da qual tentei me afastar retornavam à minha mente e se entranhavam às minhas novas memórias. Fatos e fotos se misturavam, vozes do passado retornavam para fazer eco às vozes de minha nova vida. Eu estava louco. Finalmente havia enlouquecido. Quando avistei Maria conversando com um cliente, na verdade enxerguei Eucádia. Alguém, que falava diretamente dentro de minha cabeça, me dizia que ele faria mal a ela. Dizia-me que eu devia ajudá-la, que eu devia matá-lo. Parti para cima do desconhecido. O confronto durou pouco, após alguns socos trocados senti algo rasgando minha carne. Uma lâmina penetrou minha barriga, alcançando meu estômago. Senti outras pontadas em todo o corpo, e com uma última facada acertada entre minhas costelas, aquele que finalmente me fez aquilo que não consegui fazer sozinho me largou cuidadosamente no chão.

Deitado de costas em uma esquina da Rua das Camélias, olhando para o céu, admirando o fim de mais uma noite, enxerguei um rosto choroso entrando em meu campo de visão. Era Maria. Nesse momento meu passado e meu presente se tornaram parte de uma só vida, e daí olhei para Maria uma última vez e com o sangue em minha garganta sussurrei um adeus.

Por: Matheus de Abreu Arruda e Igor Nefer
Contribuições: Fernando Campolina.

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  1. 30/03/2013 8:27 pm

    Um conto que escrevi algum tempo atrás. O original foi publicado no blog de um amigo: nefer4sex.blogspot.com.br

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