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Algumas palavras e João Assis

02/03/2011

Em todo o oceano de palavras que nos definem há sempre uma em especial. A do senhor João Assis era amargura. Amargura, diferente das palavras das quais naturalmente nos apossamos, sem pedir licença ela nos é destilada. Com o senhor Assis não foi diferente.

Todo dia, após se levantar, Assis caminha lentamente até sua varanda, senta em sua cadeira e se põe a ler o jornal. O cigarro é sua única companhia. O vazio que preenche seus dias é um convidado bem-vindo, e sua infeliz palavra cuida para que seja o único. O carisma de sua juventude perdeu-se em alguma esquina de sua vida. Hoje, à sombra de sua rotina desabitada, ele segue vivendo, apenas esperando o que nos é inevitável.

Certa noite, enquanto ele fumava o último cigarro do dia e tomava mais uma dose de whisky ao som de um triste blues, um convidado chegou. Este não era como as outras pessoas, há muito tempo o senhor Assis desejava ter com ele. Uma batida na porta o anunciou. Assis deu o último trago em seu cigarro, terminou sua dose e se dirigiu até a porta.

Em frente à porta estava um homem tão pálido que parecia morto, ele usava um chapéu preto que escondia seu rosto esquelético, trajava um terno da mesma cor e se apoiava em uma bengala. Assis o convidou para entrar, mas ele gentilmente recusou com um aceno de mão.

– Vamos, caro Assis? – disse o homem sorrindo um sorriso gentil.

– Claro, esperava que se não fosse hoje, a hora não tardaria a chegar.

Pegando seu  casaco, Assis começou a sair, mas, antes que começasse a descer as escadas, o homem perguntou:

– Assis, porque não me chamou antes?

– Nunca tive certeza se a encontraria lá. Ela está lá, não está?

– Não cabe a mim lhe dizer isso, meu caro. Mas me diga outra coisa.

– Sim?

– Porque tão amargo?

– Não sei. Acho que, depois que ela me foi tirada, era apenas mais uma forma de me escusar da companhia dos fantasmas que eram, para mim, as outras pessoas.

– Bom, você conseguiu. Então, chega de papo, agora precisamos ir.

Assis olhou pela última vez sua velha casa, suspirou e seguiu seu caminho, em seus olhos só se via uma palavra: esperança. Neste momento, a noite engoliu os dois companheiros e, em algum lugar da escuridão, jazia um corpo ao lado de um cinzeiro e um copo acabado de whisky.

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3 Comentários leave one →
  1. 03/03/2011 8:14 pm

    Nunca imaginei ver A Morte tão pacífica. Nem um velho amargo que se torna gentil, apenas de se lembrar de alguém. Muito menos amargura se tornar esperança.
    Texto completamente inesperado. A descrição do homem que bateu a porta já me disse o que esperar, mas mesmo assim gostei. Muito bom!
    Outra coisa que gosto e tenho percebido em todos os posts, é a sua capacidade de detalhar o cenário de forma a me permitir enxergar e, ao mesmo tempo, moldar algumas coisas. Imaginei um senhor rabugento, que se acalma ao sentar em uma cadeira acolchoada e fuma.
    Muito bom MESMO.

  2. Henrique permalink
    03/03/2011 10:46 pm

    Muito, mto bom!!

  3. 08/03/2011 1:36 am

    gente, que texto foda.

    for real, continue escrevendo o/

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