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r-r-r-r-r-r-r-r-r

01/10/2013

 

 

Seres famintos empilhados em enormes edifícios de concreto,

Separados por seus medos, cercados, isolados em cubículos,

Protegidos de suas emoções, blindados por sua compulsão consumista.

 

Seres famintos, com fome de amor.

Seres horrendos, organizados por cor,

Exímios compradores os que temem o corpo alheio.

 

Corpos fardados, treinados para mutilar,

Aclamados por consumidores, masturbadores, colecionadores de papel,

Papel pintado de verde, instrumento que arquiteta uma ereção!

 

Farda que ataca os que são livres,

Que destrói as mentes infantis, que marca o corpo daquele que sonha,

Daquele que luta, que vive e que ama!

 

Máquina megalomaníaca que controla os estados,

Máquina que pinta de sangue o papel que a alimenta.

Controla os corpos famintos de alma, de amor,

Envia-os pra morte com um sorriso no rosto, esperançosos protetores da jaula que os cerca,

 

Seres famintos e sem alma,

Seres de sorte aqueles que retornam,

Retornam e se aconchegam no colo do carrasco, se prosternam diante daquele que os encarcera.

 

Seres famintos,

Vivendo felizes para sempre.

  

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(sem título)

30/04/2013

Como as vagas do mar

Agiganto-me e deito,

Vago errante como o albatroz,

Sou jogado contra a areia,

Destilado entre os grãos,

Opero uma busca incessante por ti,

Qual ressaca a tragar-te,

Fundo-te a mim,

Despidos, somos consumidos, diluídos em prazer,

Quando passa a tempestade,

Oh, divina tempestade!
Exauridos, largados à calmaria,

Sumimos em baixo-mar,

Mas quando pálida e cheia a lua aponta,

Novamente levanto-me e me estico,

Deitando meus braços sobre a praia,

Procuro-te, tento alcançar,

É em vão,

tu não estás mais lá.

Rua das Camélias, 1200.

30/03/2013

Lembro-me de quando me mudei pra cá, na Rua das Camélias, 1200, apartamento dois. Eu não tinha mais nada. Vendi meu apartamento em um bairro nobre da cidade e comprei esse em cima de um bar, na rua dos prostíbulos mais vagabundos da cidade. Sustentava-me com o dinheiro que sobrou da venda e com uma merreca que eu recebia semanalmente por escrever para um jornal local. Eu não precisava de muito, minha dieta restringia-se a cafés, cigarros e garrafas de Whisky. Vez ou outra eu adicionava a isso uma ou duas refeições diárias.

Conheci Maria nessa época. Era uma mulher linda, fumava com a perícia das atrizes hollywoodianas, tinha um corpo belíssimo, seios proporcionalmente perfeitos e pernas muito bem torneadas. Ah, Maria! Tinha o nome da virgem. Era puta.

Falei com Maria pela primeira vez no bar embaixo de minha casa, logo que me mudei. Eu estava bebendo quando ela se sentou ao meu lado. Conversamos pouco essa noite. Não porque eu estivesse bêbado, na verdade ela tinha uma noite cheia, precisava ganhar a vida. Nessa noite eu sonhei com ela, acordei quando meu corpo se chocou contra a sarjeta. Depois de três noites seguidas, o dono do bar não fazia mais questão de me arrastar escada acima.

Maria e eu, a partir de então, passamos a nos encontrar sempre. Acontecia todos os dias após termos nos conhecido. Ela chegava mais cedo, para conversarmos e eu bebia menos, para nos entendermos melhor. Assim que ela saia para trabalhar eu voltava a me embebedar, como sempre fazia. Conversávamos sobre tudo, o tempo, as manchetes, músicas, mas sempre acabávamos falando da vida. Principalmente da vida dela, já que da minha eu havia me esquecido de propósito, sempre muito bem acompanhado por uma dose ou outra de um Scotch de quinta. Ela me contou que sempre gostou de sexo, que desde sua primeira vez ela sabia que não encontraria prazer maior. Contou-me que foi expulsa de casa quando sua mãe descobriu o que ela fazia com os garotos do bairro, no lote vago da rua de trás. Me falou ainda de seu pai, do que ela sentiu quando viu o olhar de decepção no rosto dele, enquanto sua mãe a chamava de puta, vadia, meretriz. Maria contou-me sobre seu marido, um ser repugnante, um misógino de primeira categoria, que a espancava toda vez que ele não aguentava mais uma trepada. Ela listava as vantagens de ser puta, as desvantagens, também.  Dessa maneira, a cada dia nos aproximávamos mais, Maria e eu.

Durante certo tempo vivemos assim. Nos encontrávamos no bar para conversarmos, após uma ou duas horas ela ia trabalhar e, depois de algum tempo que nos tornamos amigos, ela voltava antes do bar fechar e gentilmente me ajudava a voltar pra casa. Os dias se passavam e cada vez mais meu desejo de ver Maria aumentava. Confesso que, em certos momentos, nossas conversas eram mais eficazes do que as doses diárias de álcool. Eu passei a beber menos e, ao fim da noite, quando ela voltava para me buscar, eu era capaz de subir as escadas, preparar um café e aproveitar mais algumas horas com Maria. Foi assim que certo dia nós nos beijamos e transamos durante todo o resto da madrugada, adentrando juntos os três; eu nela, a manhã em nós. Após esse encontro, não demorou muito para nos amigarmos. Maria juntou as poucas coisas que possuía e tratou de mudar-se pouco tempo depois, para viver junto a mim. Vivemos juntos pelo resto de minha vida.

Por anos nosso ritual permaneceu este, o mesmo bar, a boa conversa de sempre, uma ou duas xícaras de café acompanhadas de alguns cigarros e, para fechar a noite, quando ainda tínhamos energia para isso, transávamos até a exaustão. A vida era boa apesar de nosso dinheiro não ser muito. Quando o dinheiro da venda do meu antigo apartamento acabou, passei a escrever diariamente para o jornal e Maria continuava como puta. O trabalho dela nunca foi um problema para mim. Sempre achei que o que uma pessoa faz com o corpo dela não é da conta dos outros. Se Maria era feliz sendo puta, era isso que ela deveria ser. Ah! Como a vida era boa nessa época. Pena que a felicidade é uma verdade efêmera e, pouco tempo depois, meus fantasmas passados acabaram por levá-la de mim.

Acho que durante esse tempo em que Maria e eu fomos felizes, eu estive entorpecido por alguma coisa diferente do meu velho conhecido álcool. Nossas conversas, meu alcoolismo, meu trabalho, tudo era como morfina. Toda uma série de coisas contribuíra para manter minha mente afastada de meus demônios de outra vida, mas uma coisa que aprendi sobre esses nossos demônios é que eles sempre retornam.

Certa noite, Maria não foi ao bar antes do trabalho, desci e comecei a beber sozinho. Então, o dono do bar tomou a liberdade de ir conversar comigo. Ele perguntou por Maria, falou de sua esposa, de sua televisão estragada, de alguns clientes, até que começou a perguntar sobre mim. Eu lhe disse que se calasse e     que minha vida não lhe dizia respeito, mas apenas a menção ao tempo anterior à Rua das Camélias, foi suficiente para me trazer à memória o rosto que falhei miseravelmente em esconder. A partir de então, Eucádia aparecia constantemente em meus sonhos, lembrando-me da mulher que mais amei na vida, a mesma mulher que me fez querer esquecer essa antiga vida.

Daí em diante, bebia compulsivamente. O álcool não me fazia esquecer, mas evitava que eu sonhasse com ela. A verdade é que quando desmaiamos por causa da bebida, não sonhamos. Maria nunca se queixou, nosso ritual antes de seu trabalho permanecia o mesmo, só que com uma conversa mais rasa. Ao invés de subirmos juntos, ao final da noite, ela tornou a me levar pra casa. Quando me encontrava coberto de vômito, desmaiado na calçada, Maria acordava-me, me ajudava a subir as escadas, me limpava e me colocava na cama. Ela nunca me perguntou o porquê de tudo isso, só estava lá, sempre que podia.

Certo dia, após ter arrumado uma briga com um sujeito no bar, acordei completamente bêbado, jogado na sarjeta em frente à porta do mesmo, com o nariz quebrado. Não me recordo o motivo da briga, mas tenho certeza de que meu adversário não estava pior que eu. Subi as escadas para casa, cambaleando, fazendo as vezes de um péssimo equilibrista. Abri a porta de casa procurando por Maria. Ela não havia chegado. No momento em que não a encontrei em casa, memórias de Eucádia vieram a minha mente. Então as duas mulheres de minha vida se confundiram em minha mente e acometido por uma insanidade aguda, saí à procura de Maria. Enquanto a procurava, as memórias da vida da qual tentei me afastar retornavam à minha mente e se entranhavam às minhas novas memórias. Fatos e fotos se misturavam, vozes do passado retornavam para fazer eco às vozes de minha nova vida. Eu estava louco. Finalmente havia enlouquecido. Quando avistei Maria conversando com um cliente, na verdade enxerguei Eucádia. Alguém, que falava diretamente dentro de minha cabeça, me dizia que ele faria mal a ela. Dizia-me que eu devia ajudá-la, que eu devia matá-lo. Parti para cima do desconhecido. O confronto durou pouco, após alguns socos trocados senti algo rasgando minha carne. Uma lâmina penetrou minha barriga, alcançando meu estômago. Senti outras pontadas em todo o corpo, e com uma última facada acertada entre minhas costelas, aquele que finalmente me fez aquilo que não consegui fazer sozinho me largou cuidadosamente no chão.

Deitado de costas em uma esquina da Rua das Camélias, olhando para o céu, admirando o fim de mais uma noite, enxerguei um rosto choroso entrando em meu campo de visão. Era Maria. Nesse momento meu passado e meu presente se tornaram parte de uma só vida, e daí olhei para Maria uma última vez e com o sangue em minha garganta sussurrei um adeus.

Por: Matheus de Abreu Arruda e Igor Nefer
Contribuições: Fernando Campolina.

Insanidade

03/10/2011
Hoje me sinto bem, como nunca me senti antes.
Abro os olhos e a vejo. Nossa como ela é linda. Me visto. Tomo café. Vou pegar minhas chaves. Não as encontro.
Às vezes parece que sinto cheiro de urina em minha casa. Logo passa. Deve ser minha imaginação.
Beijo seus lábios. Vou trabalhar.
Sabe quando saímos e sentimos que somos o centro das atenções? Geralmente isso me incomoda. Parece que algo mudou em mim, não estou nem um pouco incomodado. Pra falar a verdade, estou gostando. Mas porquê tanto me olham? Não estou tão bem assim. Claro, sou um belo homem. Algumas vezes chamo a atenção, mas não como hoje.
Que mulher linda! Engraçado… Ela também olhou de uma forma diferente pra mim, devo ter agradado. Mas isso não importa. Em casa, eu tenho a mulher mais linda do mundo me esperando. Gostaria que todas as pessoas tivessem a mesma sorte que eu. Tenho uma bela casa, um bom emprego, sou casado com uma mulher maravilhosa…
Cheguei. Mais um dia de trabalho. Para alguns, sentar-se em uma mesa e passar o dia fazendo relatórios pode ser chato, mas eu gosto e o dinheiro é bom.
Pausa para um café. Conversar com meus colegas de trabalho nunca é muito bom. Sempre faço o intervalo um pouco antes. Fico o tempo necessário pra ouvir uma ou duas piadas sem graça e retorno ao trabalho.
Dia cansativo. Estava louco pra voltar pra casa. Um beijo em minha esposa. O beijo dela é ótimo. Me deixa seguro. Lembra-me de que sou feliz.
Agora direto pra cama. Jurava que esta cama não era tão dura, parece o chão.
Sinto um impacto na cabeça. Meu quarto não está mais à vista. Uma rua. Várias pessoas. Socos, Chutes. Onde estou? Quem são esses?
Tudo está escuro. Algo escorre em minhas pernas. Um odor de fezes e urina no ar. Passo a mão em minha face e sinto dor. Levo meus dedos à frente dos olhos. É difícil enxergar. Sangue.
Volto a mim. Estou em uma rua deserta se não fossem os cachorros. Em uma poça d’água iluminada pelo poste de luz, vejo meu reflexo. Este não sou eu… quem é este velho mendigo?
Alguém vem vindo. Peço ajuda. Sua mão vem em minha direção. Outra pancada. Sinto algo perfurando meu abdômen. Algo quente escorre de minha carne. Estou ficando tonto. As luzes estão se apagando…
Abro os olhos e a vejo. Nossa como ela é linda.

Algumas palavras e João Assis

02/03/2011

Em todo o oceano de palavras que nos definem há sempre uma em especial. A do senhor João Assis era amargura. Amargura, diferente das palavras das quais naturalmente nos apossamos, sem pedir licença ela nos é destilada. Com o senhor Assis não foi diferente.

Todo dia, após se levantar, Assis caminha lentamente até sua varanda, senta em sua cadeira e se põe a ler o jornal. O cigarro é sua única companhia. O vazio que preenche seus dias é um convidado bem-vindo, e sua infeliz palavra cuida para que seja o único. O carisma de sua juventude perdeu-se em alguma esquina de sua vida. Hoje, à sombra de sua rotina desabitada, ele segue vivendo, apenas esperando o que nos é inevitável.

Certa noite, enquanto ele fumava o último cigarro do dia e tomava mais uma dose de whisky ao som de um triste blues, um convidado chegou. Este não era como as outras pessoas, há muito tempo o senhor Assis desejava ter com ele. Uma batida na porta o anunciou. Assis deu o último trago em seu cigarro, terminou sua dose e se dirigiu até a porta.

Em frente à porta estava um homem tão pálido que parecia morto, ele usava um chapéu preto que escondia seu rosto esquelético, trajava um terno da mesma cor e se apoiava em uma bengala. Assis o convidou para entrar, mas ele gentilmente recusou com um aceno de mão.

– Vamos, caro Assis? – disse o homem sorrindo um sorriso gentil.

– Claro, esperava que se não fosse hoje, a hora não tardaria a chegar.

Pegando seu  casaco, Assis começou a sair, mas, antes que começasse a descer as escadas, o homem perguntou:

– Assis, porque não me chamou antes?

– Nunca tive certeza se a encontraria lá. Ela está lá, não está?

– Não cabe a mim lhe dizer isso, meu caro. Mas me diga outra coisa.

– Sim?

– Porque tão amargo?

– Não sei. Acho que, depois que ela me foi tirada, era apenas mais uma forma de me escusar da companhia dos fantasmas que eram, para mim, as outras pessoas.

– Bom, você conseguiu. Então, chega de papo, agora precisamos ir.

Assis olhou pela última vez sua velha casa, suspirou e seguiu seu caminho, em seus olhos só se via uma palavra: esperança. Neste momento, a noite engoliu os dois companheiros e, em algum lugar da escuridão, jazia um corpo ao lado de um cinzeiro e um copo acabado de whisky.

Sexo. Conhaque. Inverno.

19/02/2011

Era minha segunda dose de conhaque. Em uma noite gelada não há nada melhor para aquecer. Ela entrou e sentou-se a poucos passos de mim. Seus olhos negros e penetrantes encontraram os meus, rasgaram minha pele desnudando minha alma. Levantei-me e caminhei até ela.

Enquanto andava em sua direção uma gota de suor escorreu pelo meu rosto, meu estômago se revirou. Foram dez longos passos. Estendi minha mão, ela delicadamente a segurou enquanto eu dizia meu nome,  me ofereceu o lugar ao seu lado. Enquanto conversávamos tudo o que eu queria era continuar ouvindo aquela voz. Quando eu falava era como se uma melodia perfeita fosse interrompida.

Ao entrarmos em meu apartamento nos beijamos. A cada toque o inverno parecia se extinguir, nossas roupas se tornavam fardos pesados demais. Suas unhas riscavam levemente minha pele. A sua voz, fazendo coro junto a musica, deleitava meus ouvidos. Em meio àquela confusão de corpos o tempo e o espaço pareciam se extinguir.

Um feixe de luz rasgou a escuridão me acordando. Ela não estava mais lá. Tudo o que restou da noite passada foi seu perfume em meio ao vazio apenas preenchido pelo som da agulha arranhando um disco velho.

Cotidiano

10/02/2011

Quando abri os olhos pela manhã, meu primeiro pensamento foi que não deveria tê-lo feito. Ao meu lado, na cama, os lençóis esboçavam o contorno de alguém que se fora já há algum tempo.

Já havia meses desde meu último relacionamento. Tudo o que tenho hoje são meu alcolismo e meu vício em cigarros. Mantenho-os na esperança de, um dia, ser consumido por eles da forma como os consumo, feroz e compulsivamente.

Levantei-me e fui ao banheiro, no espelho jazia o rascunho acabado do homem que fui um dia. Meus cabelos cuidadosamente desgrenhados por outra noite de sono sem sonhos e minha barba por fazer exibiam meu estado de espírito.

Escovei os dentes, acendi um cigarro, passei o café. Há melhor combinação do que café e cigarros no desjejum? Ainda eram oito da manhã, a minha capacidade de dormir até mais tarde foi prejudicada por uma longa noite acompanhado de uma garrafa de whisky, mas isso não era tão ruim, ainda dava tempo de buscar o jornal. O meu vizinho só acordaria em duas horas, conseguiria recolocá-lo cuidadosamente em frente à sua porta após utilizá-lo.

O dia passou lentamente como todos os outros, o ócio dá ao tempo a capacidade de estender o dia. Agora, dez horas da noite, estou no bar de sempre. Pedi um gin para me fazer esquecer o whisky. É interessante como diferentes bebidas agem de diferentes maneiras na nossa mente, e o gin é como um remédio para memória, só que ao contrário.

Olhei à minha volta. Lá estava ela, encantadoramente estranha. Por alguns segundos nossos olhares se encontraram. Sabe quando uma troca de olhar se torna íntima? Essa não era uma dessas vezes. Ela sorriu, eu não pude fazer o mesmo.